Sabe, senhor…

Foto Luiz Baltar_metromangueira

São séculos de opressão, séculos de silenciamento, de sujeição a algo que você sabe que não presta, que não vale nada, que te mata. Mas o capital te faz se sujeitar aquilo, ele faz com que você se silencie, sofra, cale, abaixe a cabeça porque você é servo, nasceu para servir o outro, o outro que tem cor branca, nome e sobrenome, tem um endereço que é muito diferente do seu, ele é de outra classe, é de outra raça, ele não nos pertence nem em pensamento, ele nasceu só para nos explorar.
Eu, eu nasci para servir a este senhor. E, por saber que ele, o senhor, me explora, todos falam que eu devo calar, que devo ser moldada, não posso tocar nas feridas, não posso questionar, tenho que obedecer, obedecer ao senhor.
Mas, senhor, sabe quais feridas que carrego e você é culpado por isso? É a fome, esta palavra te incomoda? Imagina pra quem sobrevive à fome, para quem a sente até hoje. Hoje digo que sou muito privilegiada por não sentir mais esta tal palavra, que são mais que palavras e até sentidos, é a fome, esta palavra mata porque a sentimos, ela incomoda e muito a quem a sente até hoje.
Sabe, senhor, a sua existência me mata, você vive do conforto que a minha pele te dá, do meu suor, do meu sofrimento, das minhas lágrimas, você vive porque sou eu quem te dou a existência. Sabe, senhor, eu não queria que você existisse, assim como você e toda a sociedade afirma há séculos, que eu também não deveria existir.

Anarquismo e Partidarismo no Brasil: Quando o Discurso de Ambos os Lados Não se Diferencia Tanto Assim…

Artigo escreto por: Humberto Salustriano da Silva

Quase sempre nas proximidades das eleições, uma intensa disputa política-discursiva se trava dentro da militância dos movimentos sociais. Entre textos de facebook, notas de repúdio e debates acalorados, põem-se em pauta os seguintes aspectos: O que seria afinal de contas a melhor estratégia de luta contra a opressão e dominação capitalista? Conseguiríamos o êxito necessário optando pelo afrontamento direto com as forças do Estado, e abandonando qualquer ilusão de que é possível destruí-lo, numa suposta luta por dentro das instituições? Ou, seríamos vitoriosos, por outro lado, se acreditássemos ainda nas vias eleitorais e lutas partidárias, na esperança de que o aparelho burocrático estatal possa ser gerenciado por políticos progressistas? Quem faz parte e acompanha todo esse processo de embates ideológicos, sabe bem que as respostas para essas questões estão bem longe de encontrar algum ponto convergente que agregue todos os militantes. O que verificamos, ao contrário, é uma gradativa intensificação das divergências e fragmentações políticas, sem contar os desgastes pessoais e afetivos que normalmente ganham contornos de dramaticidade.

Foto tirada durante do Grito dos Excluídos, 2016.
Foto do ato: Grito dos Excluídos, 2016.

Entretanto, não é sobre essa dicotomia entre os discursos ideológicos da militância política dos movimentos sociais, que me interessa aqui apresentar uma singela crítica. Quero destacar, numa outra perspectiva, o elemento em comum que é possível identificar, seja no pensamento anarquista (da destruição do estado), seja no pensamento partidário (na disputa pelo estado). Em ambas as ideologias praticadas pelos militantes, existe muito mais coisas que os fazem convergir do que aparentemente poderíamos imaginar. Comecemos, por exemplo, pelos autores dos discursos. Quem somos nós na cartografia social deste país? Quem somos nós no exercício e no domínio da linguagem? Quem somos nós no panorama da intelectualidade?

Continuar lendo “Anarquismo e Partidarismo no Brasil: Quando o Discurso de Ambos os Lados Não se Diferencia Tanto Assim…”

Entrevista com Michel da Silva, um dos idealizadores do Fala Roça

Michel da Silva, de 22 anos, é morador da Rocinha, estagiário na área de Ação Social do Instituto Moreira Salles e estudante de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na PUC-Rio. Este jovem é um dos idealizadores do jornal Fala Roça, considerado atualmente um dos comunitários mais badalados das favelas cariocas. No início deste ano, fiz uma entrevista com Michel para saber mais sobre o impresso e sobre as ideias futuras que toda a equipe vem planejando para melhorar a atuação na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. Leia a entrevista completa abaixo:

Foto retirada da página do facebook do Fala Roça
Jornal Fala Roça – Foto retirara da página do facebook do jornal Fala Roça

Continuar lendo “Entrevista com Michel da Silva, um dos idealizadores do Fala Roça”

Loja Grátis da Maré recebeu a visita de mais de 100 moradores

LojaGratisMais de 100 moradores passaram pelo dia agitado do Loja Grátis da Maré. A atividade realizada no último sábado, 03 de setembro, durante todo o dia, foi organizada por um grupo de pessoas da Maré e apoiadores da luta mareense.

O espaço escolhido para inaugurar a loja foi o ‘Curso AKairos Preparatório’, unidade de Educação Complementar voltada para o reforço escolar, ensino de idiomas e preparatórios para concursos, localizado na favela Nova Holanda.  Continuar lendo “Loja Grátis da Maré recebeu a visita de mais de 100 moradores”

A miséria, a pobreza e o governo popularesco que não temos mais…

Minha formatura
Minha formatura na Puc Rio, em 2011.

Gente, sabe a miséria? Então, minha família era desta classe E. Hoje não mais, hoje somos pobres, é bem diferente de ser miserável. Éramos miseráveis mesmo, sem comida, sem emprego, morando no esgoto, no lixo, outros sem casa. A escolaridade mais alta da minha família era a terceira série primária, isto até uns 10 anos atrás. Hoje, todas as crianças da minha família estudam, todos nós moramos em uma casa, mesmo que num barraco ou numa ocupação como eu. Todas as mulheres da minha família são empregadas domésticas ou faxineiras, os homens trabalham em faxina, como pedreiros ou vendem peixe, como o meu pai. Vejam a minha realidade, posso dizer com toda a certeza, que a merda deste governo popularesco do PT fez muita diferença na minha vida e na vida da minha família. Repito, continuo morando numa ocupação sem o mínimo de saneamento, não tenho emprego, não tenho bolsa na universidade, não tenho renda, mas me viro nos trinta porque muitos faveladxs lutaram antes para que eu estivesse numa universidade hoje. EU NÃO ACREDITO NO GOVERNO. Mas eu só penso que as crianças da minha família que estão sonhando com a universidade não terão mais isto…

Vamos criticar os privilegiados?

Criticam favelado por ter entrado na faculdade. Alguns reproduzem a ideia de que, depois da entrada destes na facul, estes viraram classe média? Me diga, que classe média e individualista? Amigo, a gente ainda tem que lutar por emprego depois que sai da facul. Nossa realidade é outra, a gente não tem inglês, temos que aprender português, é tanta coisa…
Criticam favelado por ser voluntário de ongs, de eventos. Mas vamos falar de boa, pq eu falo tanto das ongs, mas se não fossem elas, aonde eu iria passar quase 4 anos de graça no pré-vestibular refazendo o meu ensino médio? Fiz inúmeros cursos grátis por lá, eu ainda falava que não podia pagar NADA… (Não estou agradecendo a elas por isso, apenas dizendo que isso é real)
Outra coisa, criticam a gente também por receber bolsa auxílio, mas vou te contar. Quem me liga até hoje me oferecendo cursos profissionalizantes é o governo PT (Oferecendo bolsas que ainda não foram retiradas pelo novo governo). Olha que me inscrevi nisso desde quando eu recebia auxílio de comida, de gás, bolsa escola, essas paradas aí…Deve ter uns 10 anos, ainda quando meus irmãos eram menores de idade. (Não estou louvando o PT, apenas dizendo que isso é vida real)
Podem achar tudo contraditório, mas todas estas contradições fazem parte do nosso dia a dia, é sobrevivência, nossa luta é básica.
Temos que tirar o foco da crítica à favela, a crítica tem que ser feita lá em cima, aos que detém o poder, aos que sempre tiveram privilégios, pq eles têm tudo e nós temos migalhas? Os privilegiados que merecem qualquer crítica. Agora, as críticas internas, deixem com a favela, ela sabe fazer a ela mesma.

Clima Olímpico? Só se for no asfalto…

Ocupação militar da Maré / RJ Entrada das forças armadas, 5 de abril de 2014 Essa foto jamais poderá ser usada para ofender a imagem do fotografado, atentar contra sua honra e dignidade. Seu uso destina-se a fins jornalísticos, informativos, educativos, artísticos e em campanhas humanitárias. Proibida a utilização sem autorização do autor. Para usa-la, entre em contato com lbaltar@gmail.com. Essa foto está resguardada por direitos autorais. Rio de Janeiro 05/04/2014.
Ocupação militar da Maré / RJ
Entrada das forças armadas, 5 de abril de 2014

Clima Olímpico? Só se for para o asfalto, pois o clima na favela é de guerra e medo. É guerra aos pobres, aos negros, guerra aos favelados, guerra à população pobre e periférica da cidade.
A cidade do Rio de Janeiro está sediando um megaevento, mais um megaevento, as Olimpíadas.
O que se passa na TV é a festa verde e amarela, só que ninguém me convidou, ninguém nos convidou para esta festa. Esta nação nunca me permitiu nem viver, quanto mais festejar algo.
São inúmeras favelas hoje, no Rio, cercadas, sitiadas por forças militares para que alguns, alguns ricos curtam esta festa mundial.
Esta festa me mata, é em meu nome, com o meu sangue que ela está sendo realizada. Estão nos impedindo não só de circular a cidade, mas de viver, é o meu sangue no chão em troca de um megaevento.
Enquanto você comemora e assiste a cidade maravilhosa na TV, estou aqui sem o direito de colocar o pé na rua. Enquanto alguns estão festejando bem ali no centro do Rio e em outros bairros da cidade, estou aqui na minha favela sendo silenciada, aterrorizada pelas forças de repressão. São armas que matam, são tanques que cercam, são helicópteros que perturbam a nossa vida.
Neste momento, há um silêncio absurdo na favela, mas ao fundo, alguns sons de tiros. Para quem vive na favela, sabe que o silêncio é sempre sinal de medo, um terror vindo dos nossos próprios governantes que historicamente veem a favela como o perigo da cidade.
Eles invertem a lógica, pois não somos nós o perigo da cidade, são eles, eles que detém a força e as armas contra a população pobre da cidade. Eles não nos consideram como parte da cidade, eles apenas querem que a gente continue como estamos: pobres, miseráveis, silenciados com a força do medo e que sejamos sempre servos deles.

Estado que mata? Nunca mais! Mas ele está aqui, ele continua nos matando…