Comunicação Comunitária: Censuras e ameaças dentro das favelas do Rio

Nesta semana em que se é lembrado o dia nacional pela democratização da comunicação, é importante lembrar da atual situação dos comunicadores comunitários de favelas do Rio de Janeiro, pois a censura tem sido um dos principais problemas enfrentados por muitos deles.

Em um relatório realizado pelo Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro, inúmeras denúncias de comunicadores ameaçados, revistados e afastados de seus locais de moradia e atuação têm crescido dentro das favelas do Rio por causa da entrada das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).

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A comunicadora comunitária e atual coordenadora do Jornal O Cidadão, comunitário que circula há 16 anos no Conjunto de Favelas da Maré, localizada na Zona Norte do Rio, Thais Cavalcante, contou que fazer comunicação dentro das favelas têm sido algo bem delicado. “A comunicação que acontece dentro da favela é mais delicada do que a que temos em outros lugares. Além de jornalistas, somos moradores. O cuidado é redobrado e tudo nos envolve emocionalmente também.”, completou.

Ainda de acordo com Thais, quando a ocupação militar estava pelas ruas da favela da Maré, os comunicadores se sentiam limitados para circular pelas ruas e até de fazer matérias sobre temas ligados aos direitos humanos. “Nos sentíamos limitados quanto relatar e fotografar o que acontecia. Seja a respeito do exército ou o evento cultural de cada dia. Já recebi gritos de militar, sobre como falar ou dar bom dia. Mas não respondi. Ninguém é obrigado a ser educado com o opressor. Como comunicadora sempre tive cuidado com o que fazia próximo a eles, mas muitas vezes tive que me identificar, de que veículo eu era, qual o site, qual meu nome…etc”, finalizou.

De acordo com o relatório do Fórum, acontecimentos como o que ocorre e ocorreu na Maré são generalizados em outras favelas. O relato de uma jovem participante do projeto em Manguinhos e comunicadora comunitária mostra isto: “presenciei uma abordagem policial de um cidadão que passava em seu carro ouvindo música alta(funk). UPP fez a abordagem apontando fuzil e mandando parar. Do outro lado da rua, eu filmava essa abordagem. O policial viu e disse que eu não poderia filmar eles e que iria me levar para DP. Pressão psicológica daqui e dali por parte da UPP. Ao final terminaram anotando nós todos. O cidadão do carro e seu carona, mais eu que filmava, em um cadastro que desconheço. No meio desse caso mais 02 cidadãos chegaram e tentaram dialogar com o policial e o mesmo diz que se pegar o motorista ouvindo música chula, e a pessoa que filmou fazendo isso outra vez vão levar ambos para DP.”.

Em algumas favelas, as revistas e proibições de circular com celulares nas ruas têm aumentado, já que os celulares podem servir como grandes instrumentos de denúncias de violações de direitos cometidos pelos policiais. Exemplo disto é o que o Coletivo Papo Reto, que funciona no Complexo do Alemão, também na Zona Norte do Rio, abordou no mesmo relatório e nas mídias sociais quando eles sofreram tal ameça e intimidação por parte da polícia: “acabamos de sair da 45º DP daqui do alemão, onde o nosso amigo Fotógrafo Carlos Cout foi liberado depois de ser detido por ‘Desacato” e “Auto de Resistência” pelo motivo de não deixar os policiais da UPP do Alemão ver seu Celular. Cout é Repórter Fotográfico do Coletivo Papo Reto e mesmo mostrando a sua identificação foi conduzido para a Delegacia, chegando lá quando viram diversas ligações e a repercussão foi dado a ele a oportunidade de “Deixar isso pra lá” e o Carlos não arrematou e prosseguiu com a queixa e como tudo indica é mais uma violação nas mídias comunitárias”.

Ou seja, como visto, tais intimidações não são isoladas, não são em uma ou duas favelas ocupadas pelas UPPs, todas estes três relatos são de comunicadores que têm feito importantes trabalhos de denúncias dentro dos seus locais de atuações. São vários os casos que estes comunicadores conseguiram viralizar e mostrar a real situação de suas favelas que são constantemente ameaçadas e que sofrem diariamente as violações de direitos por parte do Estado. É preciso que a sociedade, que os jornalistas e defensores de direitos humanos se atentem a tais fatos colocados pelos comunicadores comunitários que não estão mais conseguindo realizar seu trabalho dentro das favelas do Rio de Janeiro.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, Paula Mairán, afirma que “Tivemos o fim da ditadura no Brasil, mas não o fim da censura na comunicação. Temos uma lógica de manutenção de poder político e econômico minoritário que é composto alguns empresários da mídia. Não é de interesse deles, para quem defende este modelo político e econômico, que o povo tenha voz. Temos casos de violência física, temos casos de prisão. As mídias populares e comunitárias hoje atuam na resistência e até na clandestinidade, por isso, a pauta pelo direito à comunicação não pode ser uma pauta de poucos, ela é de todos, da sociedade, dos jornalistas e comunicadores, é uma pauta central. A comunicação é um direitos humano. O povo tem que tem acesso e que ele se expresse pelos seus próprios veículos de comunicação”, concluiu.

(Publicado em 2015)

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