Não se apropriem da favela, a minha cultura não está à venda!

É bem irônico ver a classe média alta se divertindo ao som de funk não é? É irônico porque são estes que aplaudem e mandam caveirão todos os dias para acabar com o baile funk na favela. Há mais de 100 anos este espaço chamado favela é criminalizado, jogado no lixo, removido, arrastado, ensanguentado só por ser favela, só por tentar existir ou, na verdade, resistir!

Favela_Luiz Baltar
Foto: Luiz Baltar

Estou extremamente revoltada porque passei a vida inteira vendo pedaços de corpos no chão, perdi uma casa por causa da violência do Estado, porque tive minha casa invadida por criminosos do Estado. O barraco que moro não é cenário para ser colocado na sua capa de facebook.

Estou extremamente revoltada porque durante toda minha vida vi favelados e faveladas morrendo e levando bala por tentarem se divertir num baile funk dentro da favela. Ver tal cenário numa festinha de rico é extremamente racista, é extremamente criminoso, é extremamente dolorido.

Eu não permito que a minha vida seja cenário para rico e rica se divertirem, sambarem ou dançarem ao som da minha cultura, do meu funk. Não quero que vocês dancem tal música que vocês criminalizam a vida inteira.

O fuzil que aparece no cenários de vocês saem flores, mas saibam e, vocês sabem sim, que a nossa realidade favelada é muito dura, nunca saíram flores do fuzil que vejo todos os dias apontados para mim, só vejo sangue.

Não permito que vocês se divirtam com isso. A nossa vida não está à venda, a nossa cultura não está à venda. O funk favelado nunca esteve e não está à venda, ele não custa 90 reais, ele custa muita vida que já perdemos nesse século de resistência favelada por conta da criminalização do Estado!

(Publicado dia 31 de março de 2016)

O motivo deste artigo é porque um grupo de jovens de classe média alta estão realizando no Rio de Janeiro bailes funks com entrada de 80 e 60 reais. Os bailes são feitos no Porto Maravilha, local em que muitos favelados e negros foram removidos, expulsos, por causa das obras que estão ocorrendo por causa do “porto maravilha”. No vídeo de divulgação, é mostrado uma cenário de favela de forma completamente estereotipada. Fuzil que saem flores, vazo sanitário sujo, roupas no varal, uma favela colocada como feia, como suja, como lixo. Por isso, o escracho, o repúdio, o artigo, a revolta! 

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