Entrevista com Michel da Silva, um dos idealizadores do Fala Roça

Michel da Silva, de 22 anos, é morador da Rocinha, estagiário na área de Ação Social do Instituto Moreira Salles e estudante de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na PUC-Rio. Este jovem é um dos idealizadores do jornal Fala Roça, considerado atualmente um dos comunitários mais badalados das favelas cariocas. No início deste ano, fiz uma entrevista com Michel para saber mais sobre o impresso e sobre as ideias futuras que toda a equipe vem planejando para melhorar a atuação na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. Leia a entrevista completa abaixo:

Foto retirada da página do facebook do Fala Roça
Jornal Fala Roça – Foto retirara da página do facebook do jornal Fala Roça

1) Desde quando você é comunicador comunitário?
Eu sou comunicador comunitário desde o final de 2011, quando as forças policiais do Estado ocuparam a Rocinha para a instalação de uma UPP. Mas meu amor pelo jornalismo começou há uns 5 anos antes da ocupação. Eu comecei a ler jornal através do meu pai. Ele é minha inspiração porque ele terminava de ler os jornais e me dava para ler, daí fui me apaixonado por aquele mar de letras Times New Roman. Naquela época, em 2008, 2009.. eu atuava como repórter em um fã site sobre um jogo.
Em 2010, teve a ocupação militar do Complexo do Alemão e muitas pessoas se destacaram na comunicação comunitária. Eu tive a ideia de criar um jornal digital chamado “Viva Rocinha” para falar sobre as coisas boas da Rocinha, porque eu já estava saturado de ler tantas notícias sobre violência, guerras e etc. Os jornais retratavam (ainda retratam) as favelas como um lugar de marginais e eu não concordava com o que era noticiado. A realidade é diferente para quem mora na favela.

2) Como nasceu o jornal? Quantas pessoas participam hoje? Como vocês se sustentam? Qual a relação do jornal com a favela e qual a importância dele para a Rocinha?
Eu percebi que o “Viva Rocinha” ainda não atingia uma boa parte dos moradores da Rocinha. Nem todos tinham acesso à internet. Daí tive a ideia de criar um jornal impresso, mas era muito difícil realizar a ideia por três motivos: eu não tinha dinheiro, não tinha equipe e pensava “um jornal impresso na era digital?”.
No final de 2012, conheci outros jovens no curso da Agência de Redes da Juventude e gostaram da minha ideia. As melhores ideias ganharam um apoio de R$ 10 mil. Criamos o “Fala Roça” para homenagear a grande população de nordestinos que tem aqui. A linha editorial é totalmente dedicada a cultura na favela, nada é dito sobre violência porque a grande mídia já cobre esses assuntos. Temos cinco pessoas fixas e alguns voluntários. Nós sustentamos através de outros financiamentos da Agência, editais e alguns anunciantes.

Temos uma relação aberta com os moradores. Eles são a principal fonte para produzirmos as novas edições. Durante as entregas dos exemplares, eles dão dicas de pautas, pedem pra deixar mais exemplares e se reconhecem nas reportagens. O último jornal impresso que existiu na Rocinha foi nos anos 90. Então quando lançamos o Fala Roça, muitos moradores pensavam que era jornal de igreja. Mas explicamos aos moradores a importância do jornal que é dar voz aos moradores, uma mídia comunitária onde sabem que encontraram um conteúdo de acordo com a realidade deles. O jornalismo comunitário requer responsabilidade, amor e paciência porque dificilmente gera renda para os integrantes.

3) Como surgiu a ideia do curso?
Em 2015, ganhamos um financiamento da Agência para realizar um novo projeto. A experiência acumulada e a dificuldade em manter uma equipe fixa foram os principais fatores para desenvolvimento de uma oficina de comunicação comunitária. São aulas introdutivas de jornalismo, fotografia, produção de conteúdo para o facebook, mobilização no território e principalmente, a história da Rocinha. No final do curso, os jovens podem decidir se querem participar efetivamente das produções das novas edições do Fala Roça.

4) Quais são as principais pautas do jornal de vocês?
Nossas reportagens são variadas, por exemplo, problemas sociais, esportes, culinária, memória social, histórias de moradores, fotografia, curiosidades e etc. Nós realizamos a reunião de pauta a partir do que ouvimos dos moradores nas últimas entregas ou na vida social. Às vezes a pauta surge através de uma simples reclamação dos moradores. Um morador disse que na casa dele não tinha água há tantos dias. Eu peguei essa reclamação e escrevi uma reportagem falando sobre a distribuição irregular de água potável na Rocinha nos últimos 50 anos. Foi até traduzida pro inglês.

5) Quais os planos futuros? Quais as outras mídias que vocês têm?
Nós já conversamos internamente e temos o desejo de tornarmos uma agência de comunicação comunitária. Mas isso requer tempo, mais responsabilidades e sem falar da parte jurídica. Além do jornal, temos nossos trabalhos formais, faculdade e etc. O pessoal do jornal sabem que podem contar comigo nessa empreitada.

Nós temos presença na internet com o nosso site oficial, perfis no Facebook, YouTube e recentemente, no Instagram. Nós fazemos jornalismo impresso, mas não podemos deixar o digital de lado. Não podemos enxergar o digital como inimigo do impresso. Muito pelo contrário, o digital para nós é um importante aliado de divulgação da versão impressa. Nela os moradores ficam sabendo das nossas ações e por onde e quais dias vamos entregar os exemplares.

Quer saber mais sobre o Jornal Fala Roça? Entre na página do facebook  do comunitário: https://www.facebook.com/falaroca/?pnref=lhc

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