Anarquismo e Partidarismo no Brasil: Quando o Discurso de Ambos os Lados Não se Diferencia Tanto Assim…

Artigo escrito por: Humberto Salustriano da Silva

Quase sempre nas proximidades das eleições, uma intensa disputa política-discursiva se trava dentro da militância dos movimentos sociais. Entre textos de facebook, notas de repúdio e debates acalorados, põem-se em pauta os seguintes aspectos: O que seria afinal de contas a melhor estratégia de luta contra a opressão e dominação capitalista? Conseguiríamos o êxito necessário optando pelo afrontamento direto com as forças do Estado, e abandonando qualquer ilusão de que é possível destruí-lo, numa suposta luta por dentro das instituições? Ou, seríamos vitoriosos, por outro lado, se acreditássemos ainda nas vias eleitorais e lutas partidárias, na esperança de que o aparelho burocrático estatal possa ser gerenciado por políticos progressistas? Quem faz parte e acompanha todo esse processo de embates ideológicos, sabe bem que as respostas para essas questões estão bem longe de encontrar algum ponto convergente que agregue todos os militantes. O que verificamos, ao contrário, é uma gradativa intensificação das divergências e fragmentações políticas, sem contar os desgastes pessoais e afetivos que normalmente ganham contornos de dramaticidade.

Foto tirada durante do Grito dos Excluídos, 2016.
Foto do ato: Grito dos Excluídos, 2016.

Entretanto, não é sobre essa dicotomia entre os discursos ideológicos da militância política dos movimentos sociais, que me interessa aqui apresentar uma singela crítica. Quero destacar, numa outra perspectiva, o elemento em comum que é possível identificar, seja no pensamento anarquista (da destruição do estado), seja no pensamento partidário (na disputa pelo estado). Em ambas as ideologias praticadas pelos militantes, existe muito mais coisas que os fazem convergir do que aparentemente poderíamos imaginar. Comecemos, por exemplo, pelos autores dos discursos. Quem somos nós na cartografia social deste país? Quem somos nós no exercício e no domínio da linguagem? Quem somos nós no panorama da intelectualidade?

Um exercício de reflexão minimamente honesto, nos fará concluir que as repostas para esses questionamentos permitem identificar aquilo que realmente, ao meu ver, precisa ser de fato superado: um perfil de militante que tende a homogeneidade com algumas exceções que apenas confirmam a regra. Em geral jovens; com ensino superior; possuidores de capital simbólico e com razoável domínio teórico das lutas políticas no Brasil. Isso não quer dizer, obviamente, que possuir essas características seja algo necessariamente ruim. Ter ciência e capacidade de compreender as nossas desigualdades é algo positivo e, certamente, deve ser sempre uma finalidade a ser almejada. Aliás, é importante que se registre também: cada vez mais estudantes moradores das periferias tem conseguido acessar esse conhecimento, o que inegavelmente tem surtido efeitos interessantes dentro das organizações de esquerda e dos movimentos populares de uma maneira geral. Mas tudo isso ainda é pouco.

A militância dos movimentos sociais ainda se caracteriza por ser extremamente guetificada. Possui um imenso desejo de alterar as estruturas da sociedade, mas a realidade nua e crua é que pouco consegue dialogar com ela. E não se trata aqui de diálogos acadêmicos ou conversas prolixas que em última instância só alcançam o nosso próprio ego. O povo, aquele que acorda todos os dias para garantir a sua sobrevivência, está bem distante das nossas boas intensões revolucionárias. É preciso humildade para reconhecer isto. Seja a bandeira do anarquismo, seja a militância dos partidos políticos, ambas as frentes têm um longo caminho a percorrer no sentido de estabelecer um diálogo real e honesto com os trabalhadores da parte de baixo da pirâmide social.

É preciso superar, sobretudo, os nossos vícios vanguardistas. Aquela vontade impetuosa de querer estabelecer as regras do jogo político, ignorando os anseios e as angústias dos que sofrem diretamente com a opressão, em nome de um suposto pragmatismo revolucionário que, de forma arrogante, apresenta o seu caminho único para a mudança. Os partidos políticos de esquerda por muitas vezes deixam evidente essa forma de atuação. Trabalham fortemente com o ideário da democracia representativa, seus integrantes não poucas vezes, se apresentam ao povo como o atalho mais rápido às transformações desejadas. As pessoas aqui, não são tratadas como agentes políticos da sua própria história. São chamadas a compor às forças em torno de campanhas eleitorais, mas dificilmente são convocadas a interferir nos processos de decisão política.

Grito dos Excluídos 2016

Entretanto, a ação anarquista de uma maneira geral, também não consegue na prática romper com o ranço das vanguardas que tanto marcam os movimentos sociais no Brasil. Manifestam um imenso desejo de contrapor às forças do Estado, rechaçando qualquer monopólio de liderança, mas na prática acabam incutindo no mesmo erro arrogante de pretensão normatizadora das estratégias de militância. Aqui, a avaliação de que a bandeira política do “NãoVoteLute” tem mais apelo popular do que a militância partidária, é muito mais um desejo, do que uma realidade. A classe trabalhadora já luta diariamente pela manutenção da sua sobrevivência, e isso independe de qualquer adesão política ou teórica de ideologia anarquista em torno do voto.

Portanto, o que unifica em muitos aspectos ambos os lados da militância no Brasil é que inegavelmente eles acabam compartilhando de um mesmo Ethos. Refletem aquela velha pretensão salvacionista em relação aos pobres. Creem numa suposta consciência política exterior aos indivíduos e que só pode ser ofertada por aqueles que já galgaram os caminhos teóricos do conhecimento revolucionário. Falam sinceramente sobre a necessidade do diálogo com o povo, mas manifestam imensa dificuldade em entendê-lo nas suas mais concretas necessidades.

É de fundamental importância reconhecer essa nossa limitação e superá-la em prol de uma militância que definitivamente vá além do seu próprio gueto. Feito isso, é necessário também construir novas alternativas. Mas não existe fórmula mágica ou caminhos prontos em direção a essa mudança. Precisaremos elaborá-las passo a passo numa real e honesta troca de saberes com os trabalhadores. Existem, talvez, alguns apontamentos que podem nos orientar nesse sentido. Por exemplo, disputar os espaços públicos e privados em que a grande massa da população frequenta. Igrejas, praças, escolas públicas, bailes, fábricas e favelas. Sem a arrogância das posturas vanguardistas, e com a humildade de reconhecer que o protagonismo de uma verdadeira desconstrução do sistema capitalista deve ser daqueles que são diretamente massacrados por ele. Caso não seja assim, a bandeira da revolução continuará a ser apenas um discurso bonito nas vozes eloquentes de anarquistas e políticos partidarizados.

Texto originalmente publicado em: https://afro21.com/2016/09/25/anarquismo-e-partidarismo-no-brasil-quando-o-discurso-de-ambos-os-lados-nao-se-diferencia-tanto-assim/

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